skip to main |
skip to sidebar
Passaram aí horas, horas de uma respiração a dois, de um bater de coração a dois, horas em que K. nem por um momento deixou de sentir que se perdia em território estranho ou que aí avançava mais do que qualquer homem antes de si, um território tão estranho que o próprio ar não tinha em comum sequer uma partícula com o ar da sua cidade, quem nele errasse morreria asfixiado por esta estranheza, e no entanto não poderia senão avançar, chamado por seduções absurdas, e perder-se cada vez mais. E assim, pelo menos de início, não foi com susto, mas aliviado como se despertasse, que ouviu uma voz que chegava da sala de Klamm, grave, indiferente e autoritária, e chamava por Frieda. "Frieda", disse K. ao ouvido de Frieda num prolongamento daquela voz. Por uma obediência quase inata, Frieda fez menção de se levantar de um salto, mas depois lembrou-se de onde estava, espreguiçou-se, riu em silêncio e disse: "Afinal não vou, nunca mais irei para junto dele." K. queria fazê-la mudar de ideias, convencê-la a ir ter com Klamm, começou a abotoar-lhe a blusa, mas não conseguia dizer nada, sentia-se demasiado feliz agora que segurava Frieda nas suas mãos, era felicidade e também receio, pois parecia-lhe que se Frieda o abandonasse, perderia tudo o que tinha.
in
O Castelo, de Franz Kafka
Mylia tem de falar para quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do corpo a voz mais firme:
- Matei um homem -
diz Mylia - Deixam-me entrar?
in
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares